CRÔNICAS DE UM HOMEM MAL

Você provavelmente alguma vez em sua vida esteve com febre. Com dor no corpo, coriza e extremo cansaço.

Era assim que eu estava.

O pior é que você espera até aos últimos minutos para querer tomar uma providência - como ingerir um Paracetamol, por exemplo.

Mas enfim... decidi tomar e percebi que tinha acabado. Mas já era noite. Tive que ir até a farmácia. A mais próxima fica a aproximadamente um quilômetro de distância da minha casa. Porém já era mais de 20h. Por isso, a maioria já estava fechada. Tive que ir à que fecha somente às 22h. E eu ainda poderia escolher a mais perto: loja um ou loja dois. Escolhi loja dois, telefonei pra lá para ver se realmente estava aberta. Que ótimo, estava.

Botei uma jaqueta que deve pesar uns cinco quilos, enterrei um boné na cabeça, botei um par de tênis e fui.

Senti-me ridículo.

Explico:

Tive que sair de boné com óculos. Parecia um nerd de 17 anos. É, minha visão não é das melhores há pelo menos 12 anos. E vem piorando a cada dia. Um oftalmologista chegou até a me desenganar, dizendo que eu não poderia mais contar com aquele olho. Mas aí busquei uma segunda opinião, num consultório com mais estrutura e descobri que ainda há chances.

Enfim...

eu meio que já entreguei nas mãos de Deus. E sempre penso que se não tiver jeito mesmo, usarei um tapa-olho, igual o Nick Fury. Me orgulho de contar essa decisão. Principalmente às mulheres. Porque quando digo "Nick Fury", elas perguntam "quem?". E aí eu posso contar a elas sobre quem era Nick Fury, o manda-chuva da SHIELD, e de sua fase fantástica nas mãos de Jim Steranko. Mas aquilo era anos 70 e muito provavelmente você mesmo nem deva ter visto essa fase. Te digo, é fantástica.

Mas um aviso: nunca utilize desses subterfúgios com a garota que você está a fim. Esqueça! Ela te achará um idiota. Se ela te achar um perdedor, você estará bem. Mas um idiota é irreversível. E mesmo que ela assista a The Big Bang Theory, mesmo assim a simples imagem de você com um tapa-olho na mente dela, é motivo para correr dali. E correr muito, muito mesmo.

Mas voltando à história. Sou meio cego, já não posso mais me valer sem meus óculos. E suspeito que sou um tiquinho surdo. O paladar também não é dos melhores. Mas o olfato é bom.

Bom, muito preocupado com uma possível abordagem policial - já que eu estava com uma jaqueta bem pesada e quente e o clima da noite era agradável [não pra mim, lógico] - segui meu caminho. Rumo à loja dois.

Cheguei à bendita loja dois e descobri que fui tapeado. Ela estava fechada! Totalmente. Mas, no imã de geladeira, dizia que aquela era a loja dois. Como pode isso? Seria um caso de propagando enganosa?

Então, às cegas, já que deixei o imã em casa, tentei encontrar a loja um. Segui por instinto e depois de praticamente cambalear por meio quilômetro, eis que dois arcos de bexigas me indicavam que havia algo à frente.

Entrei. Farmácia tranquila. Poucos clientes. Um atendente. Um homem de aproximadamente 40 anos. Subitamente, veio uma vontade de perguntar o preço do viagra. Mas eis que surgiu uma outra atendente, de uns 20 anos. Sufoquei essa vontade.

Pedi meus remédios. Ao lado a moça começou a atender uma senhora que queria comprar remédios sem uma requisição por escrito - ela esqueceu em casa. A senhora já estava quase surrando a menina, quando o companheiro dela, que me atendia, parou de me dar atenção para apagar o incêndio daquela discussão.

Eu fico pensando... preciso comprar um remédio, mas tenho que levar uma requisição. O mínimo que posso fazer é ser educado. Não acredito que pressionando o nervo ótico do farmcêutico, conseguirei um tratamento especial.

Mas tudo bem... ela conseguiu o que queria e saiu em direção ao caixa.

No meu caso, só faltava uma notinha para eu pagar no caixa.

Mas...

a impressora resolveu dar uma de loja dois e entrou em greve.

Não sei quem estava pior ali. Eu ou a impressora.

Porém, o atendente percebeu que a farmárcia estava enchendo e começou a atender aos outros clientes. E eu lá, esperando, esperando... aí ele decidiu marcar tudo na caneta mesmo. E me liberou.

Cheguei ao caixa e encontrei a minha amiga que esqueceu a requisição em casa. E eis que surgiu uma conversa surreal.

A menina do caixa - porque não deve ter mais que 18 anos - falou bem assim, toda firme:
 - Cadê a requisição?
 - Esqueci. Trago depois. - disse a senhora.
 - Tem que trazer amanhã. - respondeu a menina.
 - Trago na segunda. - fuzilou, a senhora [isso porque era sexta-feira].
 - Pode ser também. - a menina amarelou.

Fiquei pensando: "pô, se pode ser na segunda, pra que toda essa conversa? Deixa a velha trazer quando ela quiser. Que diferença faz?"

Perdi pelo menos três segundos de vida numa bate-papo que não levou a nada.

Mas infelizmente para mim, ainda não havia acabado. A senhora resolveu conferir as mercadorias para ver se não tinham lhe trapaceado.

Aí ela disse: - Ué, por que quatro absorventes?
 - Quatro?! - surpreendeu-se a menina.
 - É! Olha... - a senhora mostrou a nota.
 - Isso é um três. - apontou a menina.
 - Ah, é. - disse a velha.

Mais três segundos jogados fora.

E mais quatro segundos depois, consegui me livrar daquela maldita farmácia em que nada funciona. Impressora, atendimento, clientes. E você começa a odiar a humanidade. E por alguns segundos isso tudo faz sentido. E você começa a pensar que é mais uma peça nessa engrenagem.

E aí tudo o que quer é ir embora.

E como minha vida social foi pro vinagre há muito tempo, resolvi contar a você - sim, você, que está lendo isso agora - como foi minha sexta-feira à noite. Bom, ela piorou um pouco logo depois.

Mas fica pra próxima.

Abraço!

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