O ENCONTRO

 Megalópolis, sexta à noite. Carlos Alberto Macedo é um experiente técnico em informática. Não ganha muito bem, mas como é solteiro, consegue manter-se a si mesmo, a mãe, a casa e um carro consorciado.  Carro bom, que chega a impressionar as menininhas.
 Porém, o próprio Carlos já não pode ser encarado assim; não que ele seja horrível, enojante, detestável. Não! Longe disso. Carlos é muito boa-praça. O mais engraçado e simpático dos técnicos de sua empresa. E olha que por lá trabalham 29 pessoas.
 Enfim, embora o interior seja de primeiríssima qualidade, o exterior deixa um pouco a desejar. Carlos é o típico homem de quase meia idade relaxado. Usa os mesmos óculos de aros quadrados há quase 20 anos – dá pra notar as marcas dos óculos em seu nariz, quando ele os tira; os poucos cabelos que ainda insistem em ficar em sua cabeça, estão sempre além do corte e totalmente despenteados; e suas roupas são uma verdadeira armadilha. Resumindo: se houvesse um concurso para eleger o homem que mais se parece com um dono de Sex Shop, Carlos se sagraria campeão por três – ou mais – vezes seguidas.
 Bem, mas embora nosso amigo tenha todos esses “adjetivos”, essa noite ele conseguiu um encontro.
 É claro que para não fazer muito feio, pediu à secretária da empresa que o ajudasse a escolher um terno novo. Até cortou o cabelo. Um pouco, pelo menos.
 Carlos encosta  seu carro em frente à casa de sua “acompanhante”; pega o buquê de rosas brancas no banco de passageiros; abre a porta do carro; em seguida, o portão da casa da moça; sobe as escadas e, enfim, toca a campainha.
 Seu nervosismo é tamanho, que ele resolve se virar para não ficar mais ansioso ainda.
 De repente, uma aveludada e firme voz quebra o estado de ebulição de Carlos:
 - Bem... – diz a moça – essas flores são pra mim?
 Ele se vira rapidamente, tentando – como se pudesse – imitar uma tartaruga e se aprofundar dentro do casco; fica multicolorido; sua voz sai fina, rouca, quase que não sai; seu corpo começa a expelir vapor pelo colarinho da camisa, como uma imensa panela de pressão.
 Então, finalmente, vem a resposta:
-  Sim.. aham! (pigarreia) ...sim!  - e ainda arrisca um gracejo, enquanto entrega as flores – E não apenas as  flores, mas o mundo eu te daria, se você permitisse.
 Ela encosta as pontas dos dedos em suas mãos e ele sente a gravata ganhar vida e esticar, formando um ângulo de 90º, como aquele falecido comediante da Praça É Nossa, o “Cocada”.
 - Hmm... vou pensar – ela diz. E charmosamente, saboreando o aroma das flores, ela dispara um olhar de mandar um quarteirão inteiro pelos ares e emenda: - Vou  pô-las  n’agua. Depois... sou toda sua!
 A garota se vira e seu perfume invade a alma de Carlos. Seus olhos não conseguem fugir daquele corpo escultural; maravilhoso, perfeito.
 “Mal posso esperar”, ele pensa.
Já no carro, ela se arruma e lhe pergunta aonde eles vão, pondo a mão em sua coxa – quase na virilha. As lentes dos óculos de Carlos quase quebram nessa hora, mas ele consegue se controlar e diz que pensou em levá-la a um restaurante mais reservado e depois, poderiam ir numa boate. Ela aperta a mão na coxa de Carlos e responde:
-          Ótima idéia, gatão!
“Gatão”, ele pensa. “Acho que nem minha mãe jamais me chamou de ‘Gatão’”.
E vão. No som do carro, rola um “Dois Rios”, do Skank.
No restaurante – o mais caro da região, mas como a secretária da empresa o convenceu de que  “é o melhor” e “toda mulher merece o melhor”, valor algum faria diferença para Carlos naquele momento.
Jael  - a lindíssima garota – sorridente, diz:
-          Meu Deus, Carlos. Esse lugar é lindo!
-          É o melhor – ele responde com firmeza – e você merece o melhor sempre, minha querida.
 Jael sorri. Então recolhe o sorriso e abre um pouquinho o coração:
-          Eu gostaria muito de te agradecer por esse jantar...
-          Imagina! – Ele interrompe.
-          Não, é verdade! – Ela insiste – Sei que nós ainda mal nos conhecemos, mas eu realmente precisava sair um pouco daquela casa e me divertir. As coisas não andam nada bem.
 Carlos tenta ajudar: - Problemas..?
-          Alguns...  – diz, Jael – Errr, você sabe que meu pai abandonou minha mãe e a mim para viver com outra, não?
-          Eu sei, sim.
-          Pois é. Depois que ele se foi, nosso mundo desabou. Minha mãe não conseguia dar conta sozinha das despesas e eu, que lutava para me formar em Literatura, fui obrigada a abandonar a faculdade e arranjar um emprego.
-          Meu Deus! – Carlos se surpreende – Mas o seu pai não arcou com as obrigações de pai e marido?
-          Não. Ele nunca mais voltou nem pra ver se estávamos vivas! – ela continua com lágrimas nos olhos – Mas isso ainda não é o pior. Minha mãe não estava conseguindo suportar a solidão. Afinal, eram quase 25 anos de casamento e antes de se casar com meu pai, ela jamais havia se envolvido com alguém. Mas, numa decisão totalmente descerebrada, ela resolveu se relacionar com um cara.
-          Eles começaram a namorar... – tenta concluir Carlos.
-          De início, não. De início era apenas um flerte. Ele vendia seguros. Mas havia algo naquele homem que enfeitiçava minha mãe. Ela só pensava nele. Tudo era relacionado a ele. Ninguém mais existia pra ela. Nem eu, nem o emprego, nem as contas. Apenas ele.
Até que ela o levou para dentro de casa. Eu, obviamente, fui contra! Ela chegou a me dar ouvidos, a pensar no que estava fazendo, chegou a balançar, entende? Mas, quando ele aparecia e abria aquele sorriso de mármore, eu já havia concluído que era voto vencido.
E assim foi por algum tempo. Até que, num belo dia, eu cheguei do trabalho e ouvi minha mãe chorando. Fui até ao quarto dela e facilmente conclui o que havia acontecido.
-          O quê? – Insiste Carlos. – O que havia acontecido?
-          Ele se foi – Jael tenta segurar as lágrimas – Ele a abandonou e levou todas as nossas finanças com ele. – Jael então desmorona.
 Consternado, Carlos põe sua mão por cima da dela e, paternalmente, diz: - Calma, Jael. Fique tranqüila! Essa não é uma noite de tristeza e sim de alegria. Você tem um sorriso tão lindo! Não deveria escondê-lo nunca.
 Jael sorri, em meio às lágrimas.
 E nesse clima o jantar é saboreado; os olhos de Carlos buscam o corpo perfeito de Jael, que não recua e demonstra até apreciação.
 Depois, na boate, os dois dançam em meio à multidão. Jael, insinuante, esfrega seu corpo no de Carlos. Ela o segura; o agarra pelos cabelos; roça sua perna em volta do corpo dele. Carlos, por sua vez, apenas tenta acompanhar.
 Jael o beija. E beija de novo; e de novo; e de novo. E, finalmente diz:
-          Oh, Gatão, você está sendo tão maravilhoso comigo esta noite. Eu quero retribuir toda essa satisfação!
 Então, no carro, Carlos mal consegue dirigir. Seus olhos estão disparando rajadas subatômicas; sua boca fica com excesso de fluído e ele quase chega a babar; suas mãos seguram o volante com tanta força que parece que vão arrancá-lo do lugar; seus cabelos estão todos em pé; os dedos dos pés ficam esticados, quase furando os sapatos.
 E Jael continua o sexo oral.
 No motel, Jael joga Carlos na cama, como se ele fosse um pacote de laranjas. Ela pula no colo dele e o beija. Abre sua camisa com violência, arrancando os botões e morde seu peito peludo. Carlos grita como um porco.
 Ele reage! Tira o vestido dela e mama em seus seios; depois tira a calcinha da moça. Ela arranca a calça dele e o abraça passando as pernas ao redor do corpo dele. Os dois, que estavam meio que na ponta da cama, caem no chão, se “engatando” no ar. Eles transam um sexo grotesco e animal.
 Mais tarde, o carro de Carlos pára em frente à casa de Jael. Ela desce, dá a volta no carro e tasca um último beijo pela janela mesmo.
 Ela passa pelo portão e chega até à porta. Só então, Carlos se vai. Jael ainda dá um “tchauzinho”, toda sorridente.
 Quando Carlos sai, Jael se vira e entra em casa. Seu sorriso desaparece por completo, dando lugar a uma carranca sem tamanho.
 Sua mãe, que a aguardava ansiosamente, pergunta: - E então, filha? Divertiu-se?
 Jael olha bem nos olhos da mãe e responde: - Mãe... eu acho bom o senhora começar a criar o hábito de pagar suas contas em dinheiro, porque mais uma ou duas noites com um cara como aquele e eu poderei adotar permanentemente a alcunha de “Fodida e Mal-Paga”.
 Jael, então, vai para o quarto, deixando a mãe sozinha na sala. A mãe pensa por um instante e então dispara:

 - E ele, filha? Entregou a nota quitada?!                                                                                                  

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