OCASO

Bolívar é um rapaz, no alto de seus 18 anos, muito saudável, bonito e forte - lembra um zagueiro de futebol. Vaidoso, sempre se veste muito bem, e mantém o cabelo cortado e penteado. Gosta muito de rir e se divertir. Bolívar também é muito elegante.

Mas nada na vida, exceto o próprio Deus, é perfeito. Filho mais novo de três irmãos e por isso o que mais recebeu atenção por parte dos pais, Bolívar tem um vício. Não resiste à cocaína. Há estudos científicos que garantem que cocaína é o vício mais difícil de se livrar. E nosso jovem protagonista pena para resistir à droga. Mas é deveras difícil. E, como todo vício, a cocaína não apenas lhe custa a saúde e dependência; ela lhe tira tudo, financeiramente, ou não, falando.

Numa dessas ocasiões, Bolívar acabou cheirando mais do que podia pagar e 'pendurou' alguns gramas. O fornecedor lhe deu prazo para quitar a dívida. Infelizmente, o rapaz não conseguiu o montante a tempo. É óbvio que o medo lhe percorria, mas a necessidade da euforia e de uma vida normal, lhe impediram de fugir. Eis que, como fazia todos os finais de semana, Bolívar foi até o Porão - bar temático e muito frequentado pelos jovens da cidade - encontrar os amigos e amigas.
Carros e motos iam e vinham, por quase todo o momento, mas aquele barulho específico de uma Biz 100 cilindradas virando a esquina, era diferente. Era o som da morte. Bolívar sabia, mesmo sem olhar, que daquela motoneta desceria seu algoz.
Ele fecha os olhos por apenas um segundo, passa a língua por entre os lábios e vira-se, vendo o traficante vindo em sua direção. São nove da noite. Seu primeiro impulso é correr em direção à própria moto. Bolívar quase consegue chegar na moto. Quase. O algoz tira de dentro da calça uma arma semi-automática e dispara treze tiros em suas costas, derrubando-lhe no meio da rua.
Todos, sem exceção, no Porão, se levantam e congelam. Como se possível, a única respiração audível é do próprio homem com a arma na mão. Homem, é até um termo exagerado. Um garoto mais novo e menos encorpado que Bolívar que talvez, numa luta justa, é bem provável que apanharia feio de sua vítima.
Calmamente, o garoto vai andando até o rapaz caído na rua, agonizando e chorando muito.
O garoto chega até Bolívar, lhe olha nos olhos, lhe aponta a arma no crânio.
Tudo passa na cabeça de Bolívar nesse momento. Sua mãe, os amigos verdadeiros, o medo do macabro, a pornografia, as drogas e como esse mal o levou até aquele momento, e enfim, a morte. É quando urina em si mesmo. É quando sabe que acabou. É quando não mais há o que fazer. E seus olhos fecham. E o projétil de metal invade sua testa. E sua vida é ceifada. E tudo o que era Bolívar, seus sonhos e aspirações, terminam naquele exato momento.

O garoto então, põe a arma de volta à cintura, se queima com ela e pragueja, e volta para a motoneta. Meio apressado, ele sai pelas ruas. Só então as pessoas voltam a respirar e se mexar. Alguém grita, garotas desmaiam. O dono do estabelecimento chama o resgate e a polícia. Alguém liga para a família de Bolívar.

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